Charlie Hebdo. Pensando diferente, como Luttazzi.

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Um dos melhores humoristas contemporâneos italianos é Daniele Luttazzi. A sátira ganhou quando ele desistiu de formar-se em medicina. E pela sua radicalidade foi uma das vítimas da censura berlusconiana, sendo afastado por anos da TV e perseguido pelo seu humorismo dissacrante, caustico. A sua comicidade dá comichão, incomoda, envergonha. Por isso gosto de “enfrentá-la”: toda vez me lança num degrau mais alto.

Com esse texto ele redimensiona o conceito de pensamento religioso. E faz do seu modo.
Muita gente que “é Charlie” aqui na Itália parece ter esquecido que não era quando faziam parte do coro para jogar no ostracismo humoristas como Lutazzi, Sabina Guzzanti, jornalistas como Michele Santoro e Enzo Biagi. Um periodo vergonhoso da historia recente italiana, com “Édito búlgaro” como ficou conhecido o pronunciamento de Berlusconi que desencadeou a censura.

Criticar a fé não é nem provocar nem insultar; é apelar para a racionalidade

de Daniele Luttazzi

Un  problema muito debatido na filosofia di século XIII tinha como aspecto a definição do conceito de liberdade aplicado à vontade e ao livre – arbítrio; e o relacionamento entra a vontade e o intelecto. Para os mais sexy como Dante Alighieri, o conceito de liberdade postulava aquela de racionalidade e portanto não era concebível  um contraste entre a razão e a vontade. De acordo com essa posição, que sentimos como contemporânea, o silêncio do intelecto priva o indivíduo da sua liberdade, submetendo a vontade à luxúria, ou seja ao irracional. Durante séculos, por óbvios motivos, o papado teve outra opinião, com consequências conhecidas e trágicas: da inquisição ao lobbismo contra a pesquisa científica.

Que o irracional seja a principal mercadoria da religião é confirmado pelo próprio Bergóglio. Ieri, refletindo sobre os fatos trágicos de Paris, o papa pronunciou alguns disparates interessados aos quais, talvez, seja o caso de esclarecer antes que certas fraturas ideológicas se calcifiquem de maneira errada, criando uma claudicação funcional ao imaginário coletivo.

O papa disse. “matar em nome de Deus é uma aberração. Não se pode provocar, não se pode insultar a fé dos outros, não se pode rir da religião”.

Vamos aplicar, com a devida cautela, o nosso guardião satírico: “Matar em nome de Deus é a desculpa de todo poder na História da humanidade, foi utilizado para justificar suas atrocidades, desde antes de Giordano Bruno à depois dos nazistas.

Criticar a fé não é nem provocar nem insultar: é apelar para a racionalidade, tão necessária nestes tempos de irracionalismo integralista. Se alguém acredita que existam seres invisíveis, não pode pretender de se ofender quando esses seres invisíveis (e quem acredita neles) viram objetos de ironia da sátira. A sensibilidade dos credentes é superestimada, como seria a sensibilidade dos fãs de Star Trek, se pretendessem que o culto de Star Trek fosse algo sagrado. Por essa causa, e não outra coisa, a religião é um álibi absurdo para qualquer tipo de ato feito em seu nome. A religião é mercadoria para charlatões. Quem se ofende pela sátira religiosa tem um problema, e a sua pretensão de ser respeitado porque crê em um ser invisível e nos seus profetas e anacrônica e ridícula.

As religiões não têm mais sentido, no século 21. Vão acolhidas no discurso pelo que são: algo estrambótico, um legado de épocas onde a religião supria a ciência na interpretação dos fenômenos naturais. Um chefe religioso, se fosse honesto, deveria dizer aos seus fiéis: Quem saber de uma coisa? Ninguém sabe nada sobre a vida após a morte. Vocês são livres para pensar o que quiserem”. E depois, fechar a loja religiosa.

O papa disse: “A liberdade de expressão tem o limite de não ofender ninguém”.

Guardião satírico: “A liberdade de expressão tem os limites estabelecidos pela lei: não se pode difamar, caluniar, fazer apologia de crimes, etc. A ofensa, por outro lado, não é um limite, porque existirá sempre alguém disposto a ofender-se para poder te censurar. Uma pessoa que crê, até que não demonstre que o ser invisível no qual acredita, exista, não tem nenhum direito de ofender-se quando alguém o goza. Não existe nada de “sagrado” na religião. A ofensa é criada pelo credente. É uma outra das suas invenções, como o ser invisível. Se não demonstre que o ser invisível no qual crede, existe, não pode existir “respeito” pelo teu “sentimento religioso”. Porque uma absurdidade deveria ser respeitada? Uma absurdidade não é sagrada: é ridícula.Ou trágica.

As leis não devem tutelar o absurdo. Devem defender a democracia contra as idéias violentas. A idéia violenta não pode ser admitida no discurso democrático; e erra quem dá espaço à idéia violenta em nome da liberdade de expressão, porque a idéia violenta, quando vai ao poder, cancela a democracia. A única idéia que mesmo numa democracia não pode ser admitida, é aquela violenta (cfr Mentana a Elm Street)

O irreverente, satírico, por outro lado, não é ódio: é somente irreverência; mas educa ao pensamento crítico, não dogmático.

O terrorismo cancela a democracia impendido o salutar embate entre idéias diferentes, que são o sal da democracia. Quem se ofende pela sátira religiosa faz o jogo dos terroristas.

Fonte: Blog de Daniele Luttazzi

Tradução: minha 🙂

As mulheres e um exército sedento de domínio

Esse é um editorial da jornalista italiana Lucia Annunziata que considero uma introdução importante. Nem sempre estou de acordo com as posições dessa jornalista e não porque é “de direita”, porque não é. Ela pertence à esfera que cresceu em torno da cultura de esquerda, do que hoje chama-se PD (Partito Democratico). Formou-se em filosofia e, como jornalista, cobriu a revolução da Nicarágua, a invasão de Granada e foi correspondente do Oriente Médio, entre outros. Já trabalhou também para il manifesto, o histórico jornal que nasceu à esquerda do PCI (mas isso não conta porque praticamente quase todos os jornalistas italianos passaram por aquela redação).

O editorial refere-se à liberação de duas jovens italianas que haviam sido sequestradas em Siria em agosto de 2014.

Não sei se no Brasil já existe uma reflexão sobre a situação das mulheres no meio dessa guerra religiosa pós moderna. No caso contrário talvez seja a hora de começar e, quem sabe, sem o maniqueísmo desse estado de campanha eleitoral permanente que vive o pais. Essa atmosfera tira o bom senso, esmaga a lucidez, trucida o pensamento critico. E nada se constrói, nada é elaborado, porque nessa atmosfera eleitoral não interessa elaborar teses, avançar com as análises. Como toda boa campanha eleitoral, o importante é vencer.

E quem sai perdendo é o Brasil.

Fiz uma tradução capenga, mas dá uma idéia.

Greta e Vanessa*, sombras de todas as mulheres escravas de um exército islâmico sedento de domínio

de Lucia Annunziata

Dez anos a mais. Os rostos de quem não viu o sol e não viu a esperança durante meses. Olhos que viram coisas que não teriam nunca imaginado de poder ver. Façam silêncio por favor, pelo menos hoje, pelo menos por algumas horas, vocês que estão ansiosos de abrir uma polêmica política.

Estas duas moças que acolhemos esta manhã são sobreviventes do inferno. Elas erraram por terem ido, alguém por te-las mandado, nós que pagamos (o resgate nt) – francamente não me interessa. Diante de nós estão duas jovens mulheres cujas vidas foram dramaticamente quebradas e que tornam como sombras delas mesmas, e também de todas as mulheres, as milhares e milhares que no Oriente Médio e na África e no Extremo Oriente cada dia, cada hora, neste exato momento, estão sendo  escravizadas, utilizadas para satisfazer a imensa fome atávica de domínio de um exército cada vez maior de homens violentos.

Aqui não se  trata de Islã contra nós ocidentais – aqui se trata de um exército de islâmicos radicais  que combate pelo domínio de todos – do Islã antes de tudo e de nós ocidentais como preço lateral. As mulheres que os islâmicos violentam, matam e escravizam não são as mulheres cristãs do Iraque e da Siria, as mulheres curdas que conseguem agarrar nos campos de batalha, as yazidis; são, sobretudo, as próprias mulheres islâmicas que pertencem à uma diferente versão e, portanto, “inimigas” da religião deles.

As milícias sunitas do Estado Islamico assassinam as mulheres xiitas no Iraque e na Siria – e sabemos disso através  dos milhares de testemunhos das organizações pelos direitos humanos que atuam naquelas áreas – dando-lhes, como muçulmanas, o privilégio de serem mortas sem a precedente violência carnal.

As milícias de Boko Haram sequestraram as moças cristãs, as convertiram e nos mostraram elas alegres, reunidas com o véu, as cabeças abaixadas, como  um rebanho. Mas Boko Haram mata e sequestra  milhares de mulheres muçulmanas, aquelas por exemplo que foram vítimas do ataque do dia 15 de janeiro em Baga, onde 3.700 homens, mulheres e crianças foram massacrados como parte da campanha “eleitoral” de Boko Haram em vista das próximas eleições presidenciais. Não quero insistir mas o que vocês pensam das três meninas usadas como kamikaze pela mesma feliz equipe terrorista?

É hora de fazer algo. Não sei o quê. Não tenho receitas. mas sei que é hora de abrir uma verdadeira reflexão nacional sobre este conflito, deixando de lado cada pequena polemica, toda e qualquer instrumentalização nacional.

Lucia Annunziata – Diretora do Huffington Post Italia

Fonte: Greta e Vanessa, ombre di tutte le donne schiave di un esercito di islamisti assetato di dominio

*Greta e Vanessa duas jovens italianas que acabaram de ser liberadas, haviam sido sequestradas em Siria em agosto de 2014 http://www.ansa.it/sito/notizie/mondo/mediooriente/2015/01/15/italiane-rapite-vanessa-greta-siria-liberate_f6d440a9-f073-4feb-9046-ce5ad2a9d8ec.html

Pequenas notas, mortes, deuses e lições

Lição n° 1: não devemos lutar pelo divórcio porque desrespeita a igreja católica;

Lição n° 2 : Não podemos reivindicar a legalização do aborto porque é uma heresia;

Lição n° 3 – Não podemos criticar o crucifixo na parede de órgãos públicos, escolas, instituições em geral porque o Estado é um Estado católico;

Lição n° 4 – Não devemos fazer sexo antes do casamento, não devemos usar preservativos ou qualquer forma de anticoncepcional, porque a Igreja Católica Apostólica Romana assim prega;

Lição n° 5 – O homossexualismo é considerado pecado no catolicismo e o sexo anal não é permitido no islamismo, então nada, nulla, neca de pitibiriba. Defender direitos das comunidades GLT é uma ofensa;

Lição n° 6 – São proibidas transfusões de sangue (deve existir algum pais onde as testemunhas de Jeová são maioria, não?), o uso de instrumentos tecnológicos (mas não me toquem os Amish!) e de consumo de vacas;

Lição n° 7- o Kāma Sūtra é uma obra ofensiva

Lição n° 8 – A sátira é uma expressão artistica que deve ser regulamentada por lei, possivelmente limitada ou suprimida para não ofender os deuses atualmente aceitados no planeta.

Lição n° 9 – o papa jesuíta acabou de autorizar o espancamento em quem ofende a mãe dos outros.

Lição n°10 – Charlie e outros como ele (incluindo comediantes, escritores, dramaturgos) são, em geral, debochados e “fóbicos” por isso qualquer punição, perseguição e/ou eliminação fisica é “bem feito filo da puta!”

Conclusão: fui dormir em 2014 e acordei na Idade Média.

Pequenas notas mortes e deuses

Traduzindo o editorial de Gérard Biard e escutando essa obra-prima que é Faroeste Caboclo. O Brasil me (nos) deu de presente o sincretismo. Nos dá profundidade, complexidade. E eu não o negocio com sectarismos, horrores, opressões, oportunismos, equívocos e outras barbáries, pequenas ou grandes.
É difícil, quase impossível, livrar-se deles. Somos tão frágeis e o senso da morte pulsa sem interrupção, sem trégua, tão forte, mesmo quando parece estar em silêncio. Somos tão pequenos e assustados então os procuramos, acreditamos, criamos complexos sistemas, são as nossas única defesa contra o Nada.

Assusta, dói (quem não gostaria de outra chance para abraçar quem não está mais aqui?) mas não tenho deuses, humanos ou sobre-humanos que sejam.

Un journal irresponsable: Tout est pardonné

 Tout est pardonne

Lendo o primeiro editorial de Charlie Hebdo depois da chacina de Paris. Quanto amor pela laicidade:
Não a laicidade positiva, não a laicidade inclusiva, não a laicidade “não-sei-o-quê” mas a laicidade ponto e basta. Somente ela, sustentando o universalismo dos direitos, permite o exercício da legalidade, da liberdade, da irmandade. Somente ela permite a plena liberdade de consciência, negada -mais ou menos abertamente a segundo da posicão do marketing deles – por todas as religiões a partir do momento que saem da esfera mais estreita da intimidade para descer ao terreno da politica. É uma ironia mas essa laicidade ponto e basta é a única que consente aos credentes e aos outros de viverem paz”.

pequenas notas avulsas – ordens

Existe uma razão, depois daquela indubitável de classe, para ter me feito aproximar do partido comunista brasileiro: a incapacidade de suportar ordens. Vão comentar que não fui proprio para o lugar mais indicado com todo o centralismo democrático, a URSS como pátria-mãe-guia-infalivel, e todo o dogmatismo que na época era justificado pela ausência de democracia, pela asfixia de liberdade de expressão.
Menina, fui uma católica aterrorizada (comem o corpo e o sangue de Cristo??!!), aquela parte da missa era trágica para mim. Fui uma militante intensa do PCB (para esquecer o Jesus comido por mim), fui, depois, muitas coisas. Descobri muitas coisas.
Ainda não suporto receber ordens.