Brânquias

Ontem dei um passeio em Anzio. Se o nome soar familiar é por ser uma das cidades da costa atlântica italiana que, junto com Nettuno, foi palco do desembarque dos Aliados na Segunda Guerra Mundial . Anzio é também a cidade de Calígula e Nero e, no tempo presente, é territorio de clãs mafiosos como aquele da ‘Ndrina Gallace (mas essa é uma outra história).

O meu interesse em Anzio dessa vez não era turístico ou jornalístico, era vontade de estar perto do mar e aproveitar para comprar o peixe recém-pescado. No porto da cidade, depois do leilão oficial, é comum que os pescadores vendam à ótimos preços o que resta dos produtos marinhos. Então uma caixa de quatro quilos de pequenos peixes pode custa apenas 5 euros. E aqui é muito pouco.

Passei a tarde do meu aniversário limpando os 70  pequenos e médios  peixes que a caixa continha. Duas horas tentando descobrir que espécies eram, o melhor modo para limpá-los e cuidando para que o fel não os estragassem. A memória era a mil, repassando antigas lições, relembrando outros mil peixes tratados. Cheguei à algumas conclusões:  primeiro, a tesoura é um instrumento indispensável na cozinha; segundo, lá pelo quinquagésimo peixe eu admiti que nunca aprenderia a tirar as guelras usando a técnica que a minha mãe tentou, em vão, de ensinar-me. E parecia tão simples, a faca ancorada num ponto específico das brânquias, um pequeno e único movimento e zac!  trabalho concluído.

Cheguei a ver minha mãe explicando como se tratava o peixe, o que deveria evitar, a maneira melhor para cortar, lembrei dela no jirau de casa preparando os jaraquis, pacús, tucunarés e o que mais meu pai trazia da pescaria. Naquela pequena comunidade quase exclusivamente familiar às margens do Solimões minha mãe era conhecida por ser “da cidade”,  ou seja, pelos gritos de pavor à cada serpente e perigo novos, por nunca nadar no rio e, por medo das águas, preferir canoas grandes quanto barcos no lugar daquelas ribeirinhas de poucos centímetros de profundidade.

Minha mãe era um desastre na maioria das coisas que concernia a vida num interior sem luz elétrica, com pouca comunicação com a cidade. O peixe, porém, a dona Maria Alice sabia tratar. E aquele gesto simples, rápido, limpo, de liberar o peixe das brânquias, era perfeito.

Perguntaram-me por que, exatamente no meu aniversário, decidi  passar  horas com as mãos sujas, com qualquer corte, na água fria, lidando com  peixes de estruturas desconhecidas e barbatanas invisíveis à vista (mas dolorosas ao tato). Eu pensei que era só vontade de uma fritura crocante, uma salsa de pimenta, uma boa cerveja. Pensei que era bom ter um peixe genuino, recém-saido do barco do pescador e que satisfação maior mesmo só se eu os tivesse pescado diretamente. Pensei que nada daquilo me cansava, aliás, era divertido.

Pensei na minha mãe, no meu pai, no meu irmão e nos primos, tios, tias, naquele mundo isolado de verde e de água e de seres dos rios e da terra. Pensei nas aventuras no lago hostil e selvagem, nos mergulhos nas cheias, nas pescarias de canoa, nos sons misteriosos nas longas e escuras noites, nas estrelas que caiam riscando o céu. Então entendi: ontem passei duas horas visitando intensamente a minha infância.

Eu estive lá, visitando a velha casa de madeira comida pelo rio, entre parentes que não existem mais e histórias quase canceladas pelo tempo.
Não poderia querer um presente melhor.

 

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2 thoughts on “Brânquias

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