Outro AmazonStreet

Amazon Street é um antigo projeto. No início foi pensando como uma revista cultural – científica. A imagem era essa estrada que partia da Amazônia verso o mundo contaminando – e deixando-se contaminar – de histórias, olhares, perspectivas.  O querido Narciso Lobo acompanhou o início, as primeiras, fatais, discussões. Não deu certo. Muitos anos depois um amigo  me convida a criar um blog para o Brasil contando sobre a Itália, sobre esse lado do mundo onde vivo. Era um desafio, meu português caminhou, tropeçou e não dá sinais de querer levantar-se; meu olhar deixou de ser de espanto; minhas palavras, bom, estão perdidas em algum lugar nessa estrada.
O engraçado é que precisei de quase 4 dias para encontrar o nome do blog. Amazon Street havia ficado tanto tempo em silêncio, profundamente  escondido nas águas barrentas do rio, que havia esquecido totalmente dele.
Esse espaço aqui será para publicar o que escrevi no “outro” Amazon Street. Não é muita coisa. As palavras, por enquanto, as sigo com imagens.
Espero que vocês possam encontrar o que tenho procurado.

Quando o presente é o futuro – Parte 1
Ciociaria. Na língua italiana a letra “c” é pronunciada quase com volúpia, “tciotciaria”. A primeira vez que li esse nome foi há muitíssimos anos atrás, no romance de Alberto Moravia, La ciociara, de 1957. O tema era a guerra, a violência que desmonta os homens e os recria à sua imagem e semelhança. Lembro também de fragmentos do filme de De Sica, com uma jovem e sinuosa Sophia Loren. Um papel que em 1962 rendeu o primeiro Oscar a uma atriz de língua não inglesa.

Quase 50 anos depois, voltei a ouvir aquele nome. Outra guerra, diferente, menos evidente, outra violência construída, enterrada, re-emersa. Dessa vez à imagem e semelhança de indústrias, coisas, progresso.

A Ciociaria está situada na região sudeste do Lácio (Lázio). Dentro dela existe um vale e um rio com os mesmos nomes, Sacco. Esse rio corre por mais de 80 km e banha toda uma área predominantemente agrícola, composta em boa parte por empresas familiares. A paisagem é normalmente maravilhosa, com colinas suaves e verdíssimas marcadas por criações de ovelhas, de vacas leiteiras — que abasteciam algumas das principais indústrias produtoras de leite a nível nacional, como a Parmalat, a Granarolo — e por rebanhos de búfalas para a produção da deliciosa mozzarella.

No ano de 2005 o Vale do Sacco começou a viver um pesadelo. O noticiário da tv mostrava dezenas de vacas mortas ou agonizando à beira de um afluente do rio. Os produtores de leite locais estavam desesperados. O resultado dos exames nos corpos dos animais indicava um nome: cianureto. Uma substância química de ação rapidíssima, um dos venenos mais letais.

Os animais tinham ingerido aquela substância, presente no afluente do Sacco.

Essa, porém, foi apenas a ponta do iceberg, uma pequena mostra dos venenos que contaminaram a belíssima Ciociaria.

No rio Sacco, na terra, no feno, no milho, no leite, nos animais, na cadeia alimentar inteira e nos seres humanos foi comprovada a presença de beta cloro ciclo hexano (B-HCH), um subproduto do Lindano, pesticida base do DDT, proibido na Itália desde 2001. Esse pesticida era produzido anos antes pela indústria química situada no Distrito Industrial, chamada Snia-Pbd.

Tudo o que estava entre 1 quilômetro das margens do rio Sacco foi considerado contaminado. As consequências econômicas foram devastadoras. Foi declarado estado de emegência nas cidades de Colleferro, Gavignano, Segni, Paliano, Anagni, Sgurgola, Morolo, Supino, Ferentino. Dezenas de empresas agrícolas foram obrigadas a fechar, mais de 5 mil cabeças de gado foram sacrificadas e a economia do Vale do Sacco, constituida por mais de 800 fábricas de leite, caiu de joelhos.

E não é só isso:

As pesquisas sanitárias derivadas desse episódio e efetuadas sobre um grupo de habitantes constataram a presença, além da terrível toxina do DDT, também de traços de metais pesados como o cadmio, o mercúrio e o chumbo. Cerca de 55% dos habitantes analisados que viviam nas margens do rio foram considerados contaminados de maneira irreversível. Terão que ser monitorados pelo resto da vida.

Em pouco tempo, o B-HCH pode atingir o sistema nervoso central; no longo prazo pode ter efeito sobre o sangue, o fígado, os rins. Alguns testes de laboratório efetuados em animais indicaram a possibilidade de causar problemas de reprodução e de desenvolvimento no ser humano. Pesquisas sanitárias italianas demonstram percentuais acima da média nacional de vários tipos de câncer, doenças respiratórias e aumento da infertilidade na região.

“Nós somos as cobaias do mundo sobre o estudo do impacto dos pesticidas no organismo humano“.

Quem fala é Alberto Valleriani, presidente da Rede pela Tutela do Vale do Sacco (Retuvasa), associação criada há cerca de 2 anos para monitorar, divulgar e denunciar os problemas ambientais e sanitários da região. Ele explica como não existem estudos científicos internacionais sobre as consequências dos pesticidas no organismo humano, fala como os prefeitos e a política local aceitou e fechou os olhos, durante décadas, para a indústria química e bélica local que existe desde antes da primeira guerra mundial. “Os prefeitos procuravam minimizar os problemas de saúde que esse tipo de pólo industrial pode causar. As indústrias usavam a desculpa de serem fundamentais para a econômia e o desenvolvimento da região”.

Como se diz, viver para morrer.
Uma história que precisa ser contada…


A “desprivatização” da água: uma onda italiana
Promessas são dificeis. Mantê-las muitas vezes exige disciplina, força de vontade, sorte em alguns casos. É mais simples deixar pra lá, colocar num cantinho da mente, fazer de conta que não existe.
Promessas, sabe-se, existem para serem quebradas.
No entanto, uma parte grande, substancial da nossa vida, é composta por elas. A si mesmo, feitas aos outros, pelos outros, a uma pessoa, a um grupo de pessoas, uma cidade inteira, um país. Ao mundo inteiro, quando se reúnem os “grandes” do planeta.
No dia 21 de abril de 2010, na cidade de Aprilia, região do Lácio, uma promessa, histórica, pela primeira vez em muitos anos, foi finalmente cumprida.
A Câmara dos vereadores da cidade votou uma deliberação onde se dá um ultimatum à empresa que faz a gestão do serviço hidrico: se entre sessenta dias Acqualatina não cumpre o contrato, quer dizer, os investimentos estipulados, a Câmara dos Vereadores intima a empresa “ a imediata restituição da estrutura de propriedade da cidade”.
Um simples ato, uma decisão que o prefeito e os seus vereadores, eleitos sobretudo com os votos de todos aqueles que combatem contra a multinacional Veolia, finalmente decidiram cumprir.
Não foi fácil. Logo após a vitória eleitoral os cidadãos ouviram as famosas frases mágicas: “vamos ver”, “não é fácil”, “ a situação é mais complicada do que pensávamos”, etc, etc, etc. Promessa quebrada é igual no mundo inteiro, pensado bem.
Passaram-se meses. No meio tempo o movimento pela água pública, na Itália, não parava de crescer. Mesmo sofrendo um duro golpe, com a aprovação de uma lei que ampliava a privatização da gestão hidrica, mesmo sob a indiferença do principal partido da esquerda -que há o mérito de ter aberto as primeiras pernas, pardon, portas, às multinacionais da água – e apesar do silêncio da imprensa nacional.
No dia 20 de março uma onda gigantesca, formada por mais de duzentas mil pessoas, inundou as ruas da capital italiana. Homens e mulheres de todo o territorio nacional que afirmavam o valor da vida, a sacralidade da água, o rifiuto ao predominio do deus Mercado: o dinheiro contamina todos, a avidez consome tudo mas algumas coisas não se tocam, devem ser defendidas, não pertencem nem mesmo à humanidade mas a todas as criaturas viventes. A água.
Foi maravilhoso.
Foi um ato de amadurecimento civil, de humanidade.
Nenhuma guerra perdida, nada que seja irremediável. A batalha pela água como bem da humanidade continua. Por isso o prefeito da cidade de Aprilia não entendeu, nem mesmo acreditou na reação nacional no dia seguinte ao anúncio que havia sido agendada a discussão da deliberação. O principal jornal da esquerda italiana abria com a manchete “Festa de Aprilia a água torna pública”.
Imediatamente as televisões, os programas jornalísticos, cansados das brigas eternas do governo Berlusconi, evidenciaram a notícia, descobriam que depois de Paris Aprilia era a segunda cidade européia a iniciar o processo de retorno à gestão totalmente pública da água. Compreenderam porque a passeata de Roma foi maestosa, imponente. Também ali os meios de comunicação tiveram que correr para entender a força de um movimento que havia crescido no anonimato.
O prefeito de Aprilia não conseguia acreditar no tsunami de reações, telefonemas, entrevistas pedidas pelas rádios, as reportagens nacionais. Naquele dia ele entendeu que a famosa promessa precisava virar realidade. Percebeu que a intenção do voto havia sido substituida com a obrigação do voto.
Lembrou-me muitíssimo o episódio que determinou a queda do muro de Berlim e o jornalista italiano que fez com que aquilo virasse realidade. Foi assim mesmo. Uma pergunta, um ministro pouco preparado e uma resposta apressada. Tudo havia partido de uma promessa: a intenção do governo da RDA (ex- República Democrática Alemã) de permitir a todos os cidadãos que quisessem de atravessar a fronteira, sem vistos.
Quando? Foi a simples pergunta do jornalista italiano Riccardo Ehrmann, correspondente da Ansa, durante a coletiva de imprensa. Desprevenido, o portavoz alemão Gunther Schabowski respondeu que, pelo que sabia, “a partir de agora”.
Imediatamente a notícia correu o mundo. E o muro caiu.
Na Itália o “povo da água” começou a festejar muito antes que o prefeito entendesse o que havia feito. Mulheres e homens nesse velho país finalmente deram um sospiro de alívio, permitiram que um pouco de alegria inundasse essa grande batalha de vida.
Porque escreve-se água mas se lê democracia.

A “lei da mordaça” italiana

A lei na prática proíbe aos meios de comunicação de publicar atos processuais mas – e sobretudo – limita gravemente o instrumento judiciário da escuta telefonica, considerado indipensável para o combate ao crime organizado.
É uma imposição de Sílvio Berlusconi principalmente após ter vazado na imprensa as conversas entre ele e um membro do Authority de Vigilança sobre as telecomunicações, onde o primeiro ministro italiano brigava com um membro de um órgão que por definição deveria ser independente por não fazer nada contra os programas televisivos incômodos; ou as conversas gravadas entre ele e uma prostituta que havia sido enviada em casa sua por um lobista envolvido em tráfico de drogas e de influência; ou o escândalo envolvendo a Defesa Civil e um esquema de empreiteiras que lucravam com as obras de emergência. Numa das escutas publicadas dois empresários ligados ao todo – poderoso Guido Bertolaso (chefe da Defesa Civil) estão conversando sobre o terremoto de L’Aquila e sobre o business que a tragédia iria provocar, um deles, empolgadíssimo, faz um comentário que chocou a Itália: “… esta noite às 3 e meia da madrugada* eu estava rindo na cama…“. São algumas das muitas histórias que a sociedade italiana ficará sem saber quando a lei da mordaça será aprovada na Câmara.

A Osce (Organização pela segurança e cooperação na Europa), com sede em Viena, solicitou à Itália de renunciar ao projeto de lei ou de modificá-lo para que fique em sintonia com o standard internacional de liberdade de imprensa. “Os jornalistas devem ter a liberdade de veicular notícias de interesse público e de poder decidir como gerir uma reportagem investigativa de maneira responsável“, diz Dunja Mijatovic, responsável da Osce pela liberdade de imprensa.

Os magistrados ameaçam uma greve nacional, os editores de jornais e até mesmo Sky, do bilionário Rupert Murdoch, dão ampla divulgação à lei da mordaça e a sociedade civil prepara-se para uma nova onda de mobilização. Não tem jeito, na Itália entre crises de governo (bimestrais), crime organizado, maçonaria, Vaticano, sistema econômico e envolvimento dos serviços secretos em tudo isso é impossível chatear-se…

Ah, a propósito, no dia 8 de julho está sendo organizada uma passeata nacional em Roma. Lá vamos nós.

* madrugada do dia 6 de abril de 2009, hora do tremor que destruiu a cidade de l’Aquila e muitas outras da região de Abruzzo

Ao Ribamar Bessa e ao nosso amor em comum

As ruas de pedra crua, o joelho sempre ferido, o primeiro beijo, o seu Ceguinho, a Carmem Doida, o padre Marcos, o português Fernando que nós tínhamos certeza não se afastava nunca do seu bar, o medo do Conêgo Azevedo antes da reforma onde, corria a voz, havia um esqueleto além dos seus muros escuros (muralhas, para nós crianças), as corridas com os cachorros nos nossos calcanhares, os banhos de chuva embaixo das calhas, cachoeiras de detritos, o último andar do colégio Aparecida, onde se dizia era fechado desde que o elevador despencara matando dois estudantes (poucos ousaram ultrapassar as portas fechadas, desafiando as escadas em ruínas que davam na antiga biblioteca), os papagaios enrolados nos fios, a goiabeira de galhos lisos atrás de casa, a família Pacatuba na frente, os Paixões e as brigas memoráveis, os pequenos empurrões entre amigas, o rio, as corridas até a bóia no meio da água, os arraiais na Igreja, a primeira comunhão e o medo de cometer pecado entre a primeira confissão e a ostia sagrada no dia seguinte, a total, absoluta ausência de roubos, a quadra, as passagens secretas até a Luiz Antony, as velhas casas estreitas, minúsculas, da Bandeira Branca, as enchentes que lambiam as cozinhas com os quintais de rios na Gustavo Sampaio, o seu Aury, que consertava tudo, a dona Pequena fumando cachimbo na cadeira de balanço. As cadeiras de balanço! Todas as cores: amarelas, verdes, azuis, enfeitando as portas; o seu Osmar e a sua ternura africana.

Não sei o que existe naquele lugar que nos rende ligados a ele desse modo indissolúvel, não sei o que é capaz de marcar a memória com esse fogo perene, não tenho um nome para explicar o que, desse bairro — pedaço de terra, quase lama de rio — permanece em silêncio no lugar mais remoto da nossa alma e que retorna toda vez que perdemos a estrada, que erramos o caminho, que nos sentimos solitários e vencidos. Retorna, nos sussurra um nome, nos recorda um aniversário.

Aparecida. Aquele lugar nos forja em continuação. Vamos morrer pela mesma causa e, espero, com um meio sorriso nos lábios lembrando do Rubem nos dando uma piscadinha cúmplice.

A Aparecida não é uma doença, é a nossa loucura.

Olhos azuis
17 de fevereiro de 2009
A maioria das pessoas passa a totalidade da própria vida sem nunca ter cruzado com os olhos de um bandido. Não me refiro ao pusher da esquina, ao ladrão da mercearia, ao moleque que rouba no ônibus ou ao político corrupto.

O bandido ao qual penso tem a que ver com o cafetão e o ignóbil crime de explorar a prostituição, de traficar armas e drogas, de torturar e assassinar seres humanos, de manter trabalhadores em estado de escravidão, de aterrorizar comerciantes para manter o controle sobre o território.

Em torno dele não paira a aura dos cangaceiros e nem é o cara que Chico Buarque chama quando ouve a polícia bater na porta de casa. O bandido não tem o aspecto atormentado de Al Pacino, ou é um vingador de um clássico graphic novel. Porém seja num morro do Rio ou nas montanhas dos Balcãs, o bandido de verdade tem uma característica transnacional: a perversidade.

Essa perversidade permite que ele dissolva um garoto no ácido, como foi feito com Giuseppe di Matteo, que promova estupros de massa como aconteceu na Bósnia, que torture sistematicamente seres humanos nas ditaduras espalhadas pelo mundo, que mate sem piedade animais para o trafico ilegal. Para ele é simples trabalho, pula de um para o outro, nada que tire o sono, muito provavelmente sente prazer.

O bandido não tem ética, não tem piedade e nenhum sinal de superego. Se existe uma materialização laica do demonio é provável que seja ele. É um bem que ele não apareça muito na luz do sol e que seja raro cruzar com um deles pelo caminho.

As vezes, porém, é um encontro inevitável.

Eram passados poucos minutos desde que haviam lançado um pano com gasolina contra um bar fechado, na rua principal, provocando a explosão da vitrine e um início de incêndio, acendendo alarmes às dez horas de uma silenciosa e solitária noite invernal.

Na frente do lugar já estava estacionado o caminhão dos bombeiros. Policiais entravam e saíam do bar, alguém começava a passar uma vassoura para limpar os vidros no chão.

Em uma situação normal, a emoção de qualquer proprietário diante daquele caos seria de perplexidade, indignação e raiva. E naquela cidadezinha, famosa na região pelo caráter irrascível dos seus habitantes, teria sido quase natural o bate-boca com os agentes da polícia, os palavrões contra o prefeito, temperados com pitadas do clima nacional de insegurança, de xenofobia, de aumento dos assaltos.

Mas não era uma situação normal, e era demonstração justamente a ausência dessas reações. Duas garotas de 15, 16 anos se afastavam chorando baixinho, uma confortando a outra. Um rapaz no celular explicava o que havia acontecido, enquanto entrava com decisão no seu gigantesco SUV acompanhado por outros homens. A proprietária conversava sussurrando com outra mulher e de vez em quando levantava o olhar aos pouquissimos curiosos: “vocês estão se divertindo com o espetáculo?”

Ele apareceu do nada, alto, branco, cabelos castanhos claros, tórax largo: um típico representante do leste europeu. A jaqueta de camurça perfeitamente conservada, as pernas levemente abertas, solidamente plantadas na entrada do outro bar, no lado oposto da rua.

Os olhos daquele homem eram pequenos e redondos e de um azul celeste, quase transparente. Falava com o grupo de rapazes estacionado na entrada do bar; pedia um isqueiro. Com o corpo se posicionava na frente deles, quase parecia comunicar que era melhor não se aproximar nem fazer perguntas, pelo menos não aos seus rapazes. “Não me interessa o que acontece na rua”, a curiosidade, se sabe, matou o gato. Continuava fumando o cigarro naquela posição que lembrava a de um animal que acabara de marcar o próprio território.

Policiais e bombeiros se preparavam para deixar o lugar, lentamente tudo readquiria um aspecto de normalidade e dali a pouco, passando na frente daquele simpatico bar, ninguém suspeitaria que havia sido teatro de um atentado, a não ser os promotores e os proprietários, naquela densa e invísivel rede de vítmas e carnefices do racket.

Não é uma experiência que se possa esquecer facilmente aquela de encontrar um bandido, sentir o seu olhar enquanto obstinadamente, teimosamente, cretinamente permanece-se no próprio lugar, numa competição muda por um espaço físico de poucos metros: “interessa tudo o que acontece aqui porque essa cidade também é minha”.

Dois estrangeiros disputando uma terra, ignara de uma luta silenciosa por um espaço que significa legalidade e cidadania. Acontece raramente nas ruas italianas.

À noite, sonhei com terríveis olhos azuis.

Divino motociclista

19 de março, 2009
Os policiais esperavam que no dia seguinte chegasse o caminhão com os sapatos e com as roupas de lã. O problema era hoje, aquele hoje: como resolver as infestações de piolhos e as epidemias de sarnas, como aliviar o sofrimento de mais de 350 pacientes mal cuidados mantidos dentro de uma estrutura com banheiros imundos, carrapatos, camas quebradas e sem lençóis, janelas arrombadas, a cor cinza inundando os salões de paredes altas do imenso complexo de propriedade da Curia de Cosenza, o Instituto Papa Giovanni XXIII, para pessoas com deficiências mentais e físicas.

No blitz solicitado pelo Ministério Público — e durante todo o período seguinte –, os peritos descobriram uma longa lista de irregularidades no Instituto, incluindo centenas de prontuários de pacientes que pareciam adulterados, falsificados e fotocopiados, além de diagnósticos idênticos — não importando se os problemas eram mentais ou de deficiências motoras –, ou casos de múltiplas fraturas que nunca foram tratadas.

As acusações aos administradores da estrutura são graves: apropriação indevida, formação de quadrilha finalizada à fraude, falsificação de notas fiscais, abandono de pessoa incapaz, desvio, segundo os cálculos da Promotoria, de 13 milhões de euros de financiamento e de outros 15 milhões de impostos nunca pagos. E mais. Histórias inquietantes de falsos testamentos, de pessoas que desapareceram no nada, de mortes suspeitas, de tráfico de órgãos.

Mas vamos por etapas.

Serra d’Aiello é uma pequena cidade, praticamente um povoado, situado nas montanhas da província de Cosenza, na Calábria, profundo sul italiano. Em 2001 o censo indicava que viviam ali 878 pessoas: 423 homens, 455 mulheres. Seria uma realidade como tantas, muítissimas outras na Itália, que tinha como vocação aquela de virar uma cidade-fantasma, esvaziada dos jovens que migram para centros urbanos — quase sempre no norte do país — tentando construir uma alternativa de vida, deixando para trás relitos, velhos agricultores, homens e mulheres com o rosto marcado pelos antigos e arraigados problemas da Itália meridional. Seria esse o futuro de Serra d’Aiello se na cidade não houvessem criado a particularíssima versão de “fábrica da Fiat pessoal”, uma verdadeira locomotriz de empregos, o Instituto Papa Giovanni XXIII.

E, efetivamente, o Instituto distribuiu sonhos para muitos no contexto de eterna crise e pobreza da Itália do sul. Nos anos de ouro, chegou a abrigar 900 pacientes: idosos, jovens, paralíticos, mutilados, doentes mentais — verdadeiros e “presuntos” –, órfãos ou abandonados pela família. O instituto aceitava todos, todos eram bem-vindos porque todos tinham um valor. E, naquele caso, o valor variava entre 110 e 195 euros por dia, a quota que o Estado pagava por cada pessoa, hóspede do Instituto, somados aos pequenos patrimônios pessoais fagocitados pelo caixa do Instituto. Foi também o período do boom de empregados, mais de 1600, a maior parte “recomendados políticos”, na mais perfeita tradição de clientelismo italiano.

Segundo os investigadores, na realidade o Instituto gastava entre 8 e 11 euros por dia por cada paciente e muitas vezes eles eram privados das refeições. O atual bispo de Cosenza, Mons. Salvatore Nunnari, em uma carta aberta comenta sobre aquele período e as origens da instituição quando ainda era guiada por seu fundador:

O Instituto surgiu pela paixão de um sacerdote simples e humilde: Don Giulio Sesti-Osseo. (…) O Instituto, inicialmente, viveu com a caridade. Foi introduzido, também, nas subvenções que eram específicas para aquele tipo de estrutura e assim desenvolveu-se, recolhendo irmãos e irmãs doentes de toda a Itália meridional. O Instituto, portanto, é filho da caridade e não do cálculo. O mencionado sacerdote fundador foi um homem de grande coração, assim eu o conheci pessoalmente no final dos anos 70 quando, ainda pároco em Reggio Calabria, eu trazia para ele os meus doentes refutados por todos. Não foi, porém (Don Giulio Sesti-Osseo – ndt), um técnico da gestão. A obra, por esse motivo, fugiu ao seu controle transformando-se em um reservatório de votos por quem, aproveitando-se da sua bondade, levou o instituto a ter mais de mil funcionários, nem sempre qualificados para o serviço aos pacientes.

A gestão de don Giulio, efetivamente, não foi livre de turbulências. Em 1988 um paciente morria sufocado com a esponja ingerida do seu colchão e, três anos depois, os carabineiros encaminhavam ao Ministério Público uma acusação ao sacerdote por hipótese de crime de apropriação indevida e abuso dos meios de correção e disciplina. Na época os familiares de um doente mental contavam que, após terem pago 4 milhões de liras para o internamento do parente o encontraram, meses depois, recolhido em um ambiente que caía aos pedaços e sem as mais elementares condições higiênicas; além disso, o doente teria sido submetido a violências físicas por parte do pessoal.

Os anos passam e o Instituto Papa Giovanni XXIII é protagonista nos jornais locais pelas reivindicações por salários e melhores condições de trabalho, pelo constante atraso nos pagamentos, pelas greves, pelas ocupações trabalhistas. Das condições de vida, da qualidade do serviço, da situação dos pacientes fala-se quase nada. Era a omertà, o silêncio que atormenta desde sempre o sul da penísula itálica.

Ou, talvez, era a excentricidade do padre que sucedeu don Giulio na direção do Instituto, que chamava a atenção e fazia empalidecer as condições dos pacientes doPapa Giovanni XXIII. De fato, don Alfredo Luberto era conhecido nas cidadezinhas calabreses como “padre da Harley-Davidson”, devido à sua evidente paixão pela histórica motocicleta.

Não podemos saber se padre Luberto, enquanto rodava pelas estradinhas de montanha da província de Cosenza, sonhasse com os Onepercenters, os durosbikers on the road estadunidenses ou com os mais burgueses Harley Owner Groups. É muito provável, porém, que os pesamentos do sacerdote fossem todos dedicados aos seus 12 automóveis, alguns luxuosíssimos, à sauna e sala de ginástica da sua bela mansão, às caixas plenas de jóias, ouro e prata, à rara coleção de relógios de época, aos móveis antigos de luxo “de valor incalculável”, aos desenhos de artistas como De Chirico, ao púlpito esculpido por Giacomo Manzú, aos hotéis 5 estrelas, às cameras matrimoniais reservadas no seu nome e só Deus sabe o quê mais.

Os agentes da finança italiana passaram 12 horas catalogando todos os bens de padre Alfredo Luberto. Era um homem com a cabeça plena de pensamentos.

Atualmente os magistrados indagam sobre o destino do “tesouro” do sacerdote, avaliado em milhões de euros. Falou-se da América do Sul e, em uma notícia de 2008, a magistratura suspeitava de um advogado ligado ao sacerdote que havia efetuado algumas operações em Wall Street através de um banco do norte da Itália.
Um interesse igual, porém, os magistrados reservam a outro tipo de destino ignorado: pelo menos 12 pacientes dissolvidos no nada, que desapareceram sem deixar traços. As primeiras notícias de desaparecimento são de 1997. Um programa televisivo da Rai chegou a veicular o apelo de famíliares quando deixaram de ter notícias de um parente internado ali. Nos últimos dias os jornais falam de prontuários de pacientes que entraram, mas sem registro de possíveis datas de saída. Além disso, a magistratura está investigando pelo menos 15 “possíveis homicídios”. Fala-se também de denúncias anônimas de tráfico de órgãos.

Em 2007 Padre Alfredo Luberto, junto ao seu contabilista, foi preso. A Igreja para ele reservou a suspensão a divinis, ou seja, o veto de celebrar sacramentos, como a missa e a confissão.

Os vários processos não foram concluidos, mas nos últimos dias o Instituto Papa Giovanni XXIII, chamado pela imprensa italiana como “clínica dos horrores”, foi finalmente desativado.

O caminhão com sapatos e agasalhos de lã não será mais necessário. As montanhas calabresas não ouvirão mais os gemidos dos fantasmas — vivos e mortos — do Instituto Papa Giovanni XXIII.

Nem o ronco de uma Harley-Davidson.

Crônica de um terremoto
8 de abril, 2009

Não consigo deixar de sentir a terra tremer sob os meus pés.
É como se houvesse passado dias dentro de um navio mas na verdade caminhei nas últimas horas entre edifícios destruídos, asfaltos rachados, muros abatidos, sentindo dezenas de tremores de baixa intensidade. São aquelas ondas sísmicas criados logo após um forte terremoto. É a terra, são as rochas que se ajeitam, que procuram encontrar um novo equilíbrio, que se assestam.
E hoje em Abruzzo, na Itália, sentimos tantíssimas, dessas ondas, a tal ponto que não era mais possível distingui-las das vibrações criada pelos caminhões do exército, pelos jipes da defesa civil, pelas ambulâncias que corriam a alta velocidade com as sirenes a todo o volume gritando uma urgência que arrepiava a pele e obrigava a proteger o ouvido, duas, três, quatro, oito, uma atrás da outra percorrendo as estradas plenas de detritos.

Áquila hoje é um inferno. Há o aspecto de uma cidade bombardeada e pelas ruas uma multidão em estado de choque vaga sem uma meta precisa, o olhar perdido, as mãos agarradas aos cobertores distribuídos pelo exército, cobrindo pijamas, roupas de ginástica, tênis – uma garotinha calçava uma sandália cor-de-rosa a forma de coelho – as primeiras peças de vestiário que se encontra durante a corrida para sair da própria casa. Uma corrida que pode significar a diferença entre vida e morte.
Para chegar na capital da região de Abruzzo é preciso enfrentar montanhas, viadutos e túneis. Seguíamos pelo rádio as últimas notícias: 10 mil prédios atingidos, treze vítimas fatais, entre elas, quatro crianças. Eram as primeiras cifras. Ninguém havia a ilusão que permaneceriam tais.

As autoridades fecharam partes da rodovia de alta velocidade e lançavam apelos para que ninguém tentasse entrar na região. Durante um longo trecho somos os únicos na estrada, nenhum carro numa direção ou na outra, parece que o mundo acabou. No final de um dos túneis a diferença atmosférica é brutal, passa-se do clima primaveril e dos 19 graus do Lácio aos 3 graus de Abruzzo, com a neve nos picos das montanhas.

Atravessamos viadutos suspendidos a dezenas de metros do chão, torcendo para que não tenham sido afetados pelo sismo. Ultrapassamos pequenos grupos residenciais, ainda nenhum vestígio do terremoto que às 3. 32 da madrugada de domingo abalou a região de Abruzzo e foi percebido em parte consistente da Itália.

Às 07.30 da manhã finalmente chegamos na periferia de Áquila. Estacionamos numa avenida para evitar as filas de carros que estão entrando na cidade. Não consigo explicar esse êxodo invertido, depois entendo que são pessoas que haviam fugido durante a madrugada e ora tentavam retornar à própria casa, verificar os danos, tocar com a mão a situação.

Passamos por supermercados, por lojas, bancos, bares, hotéis, todos fechados. Os estacionamentos eram repletos de gente ao redor dos próprios carros, o bagageiro aberto. Ajeitam malas, cobertores, objetos, as poucas coisas que conseguiram salvar.

Os primeiros edifícios não apresentam sinais evidentes do terremoto, pelo menos não desse lado da cidade. Aos poucos começamos a ver rachaduras, janelas levemente entortadas, partes de teto descobertos, tijolos pelas calçadas. As pessoas descem em pequenos grupos, o braço ao redor dos ombros, alguns arrastam malas.

O “M” da placa de um McDonald caído de cabeça para baixo delimita a fronteira última. Ali no chão aquele moderno letreiro de Dante indica o umbral do inferno, é uma advertência, “deixai toda a esperança, o vós que entrais“. E, logo depois, um armário desponta do primeiro andar de um prédio, as paredes que deveriam cobri-lo não existiam mais.

Começo a murmurar oh, merda, mas já sei que é o mínimo e que é apenas o início.
A medida que avanço sinto a atmosfera tornar-se mais frenética. A idéia que se há de uma catástrofe vai virando realidade. As sirenes não param um instante sequer, é um barulho dominante, inquieta, contínuo. Numa padaria, o primeiro comércio que encontro aberto, as pessoas esperam em fila para comprar pão, presunto, queijo, água, o necessário para um café da manhã arranjado. O cartaz da panificadora, escrito com pincel atômico, parece pueril, inadequado, lembra um cotidiano distante, “Aconselhamos: aos domingos não percam tempo procurando pão quentinho em outras partes. Pão bom vocês encontram só aqui!”

Continuamos entrando na cidade. É gradual o encontro com o desastre mas nem por isso atenua o choque do cenário na nossa frente: fileiras de prédios ainda em pé mas com rachaduras, rebocos partidos, varandas em equilíbrio precário, chaminés quebradas, janelas tortas, muros desmoronados, blocos de pedras – no caso das construções antigas – e de tijolos – naquelas modernas – saindo das paredes. Entretanto, é subindo pela rua XX de setembro, que contorna o centro, que começamos a constatar a dimensão da tragédia. Na nossa frente uma construção completamente pulverizada. Uma mulher grita o nome de uma pessoa enquanto bombeiros e voluntários caminham sobre a colina de detritos que antes era um prédio de 5 andares. Escavam com as mãos, com pás, martelos. Uma escavadeira de pequenas dimensões, usada nas operações de resgate justamente por não acrescentar mais peso à estrutura, extrai os detritos num dos lados.

Policiais e agentes da proteção civil bloqueiam o transito, somente os veículos autorizados e a imprensa podem passar. Assim mesmo devemos permanecer do outro lado da calçada, à distância de segurança. E ali, próprio enquanto ultrapassava um caminhão de bombeiros estacionado, sinto o primeiro tremor intenso após aquele da madrugada.

Eu sabia que era provável, que seria inevitável mas nutria o desejo vão de poder evitar um tremor enquanto estivesse percorrendo a cidade. Foi tão intenso, instantâneo e rápido que medo e susto se sobrepuseram um ao outro. O asfalto se levantou, perdemos o equilíbrio, do meu lado o caminhão dos bombeiros simplesmente se alçou no ar por alguns centímetros. Foi terrível mas não era nada em comparação com aquele que havia desencadeado esse inferno.
Adentrando nas ruas do centro de Áquila encontramos outros prédios semi-demolidos, outras rachaduras, cúmulos de destroços, andares e andares sem paredes externas, como se tivessem sido rasgados. Não sabíamos nunca o que encontraríamos entrando numa nova rua. Vimos quartos, salas, partes de móveis, televisores, a cabeceira colonial de uma cama, como as casas gigantes de brinquedo onde são expostos o interior. Através de um enorme buraco no segundo andar de um edifício um balão flutuando indicava que ali vivia uma criança. Era quase obsceno aqueles objetos domésticos, íntimos, exibidos daquele modo ao olhar de estranhos. E mais: fiações elétricas e tubos, o sistema sanguíneo de prédios, a alma de uma cidade .

Superamos uma ponte e logo depois outra drama, um dos prédios da Casa do Estudante Universitário estava tombado de um lado, com um andar em menos em relação aos outros prédios gêmeos. A faixa horizontal de concreto armado da entrada estava rompida no meio, formando um V.

Áquila, além de ser capital da região de Abruzzo, é também uma cidade universitária, há muitas atividades culturais e reúne milhares de jovens. “Eu estava no quarto andar, consegui me salvar saindo pela janela, alcançando a varanda e pulando de uma para outra enquanto a terra tremia” me conta um rapaz sentado na pequena pracinha diante da residência universitária, junto com dezenas de outros estudantes que assistem ao trabalho dos bombeiros, esperando de rever vivos os amigos que ainda estão sob as ruínas. Um outro garoto me diz que haviam setenta, cem pessoas dentro do prédio, “a sorte é que muitos haviam tornado à casa para as férias de Páscoa“.

Um bombeiro abre as portas traseiras de um furgão e vejo vários cães de diversas raças dentro de celas e distribuídos em três planos. São os animais adestrados para encontrar pessoas nessas condições.

Ouço que um dos garotos que estão tentando salvar repetia aos bombeiros que estava no 5° andar. Ele não havia idéia de que agora, depois do terremoto, se localizava na parte inferior das ruínas, na altura da rua.

Alguns metros mais adiante da residência universitária, virando à direita, um soldado está parado na frente de um corpo coberto, obstruindo ele à visão dos passantes. Daquele emaranhado de cobertores saem pés com meias pretas. Aquela pessoa havia morrido sem ter tido o tempo de colocar os sapatos e se pode somente desejar que estivesse dormindo, que não tenha sofrido.
No final dessa rua um outro prédio completamente destruído. Pelo menos oito pessoas ainda estão presas ali dentro, os bombeiras escavam desesperadamente e pedem silêncio para ouvir o apelo de quem ainda está preso sob toneladas de cimento.

Numa outra rua, estreitíssima, é impossível passar, pois está obstruída por pedaços de construções de ambos os lados e mais uma vez vem em mente a imagem de mil bombas cegas que reduzem em pó tudo o que tocam.

Tentamos evitar essas ruas estreitas mas é difícil. São típicas das cidades antigas, que foram construídas séculos atrás quando o carro não fazia parte de nenhum sonho. Caminhar por elas é perigoso, os prédios podem desabar em qualquer momento.

Um edifício com a arquitetura fascista apresenta uma profunda fissura vertical. É curioso porque o estilo representa força, solidez, concretude das linhas. Encontramos mais edifícios modernos destruídos, reduzidos em pó. Isso será algo que me surpreenderá por toda a viagem dentro da cidade de Áquila. Pó, areia branca, ferro. Casas de concreto armado que foram construídas no pós-guerra ou nos anos 80, como no caso da Casa do Estudante, simplesmente arrasadas. Pela lei deveriam ser anti-sísmicas, é mais um elemento desse desastre anunciado que irá se delinear a medida que se passarão as horas, como a evacuação do recente e modernissimo hospital da capital, declarado instável, somando problemas ao problema.
Caminhamos pelo centro das ruas para nos proteger da queda de fragmentos de prédios, o olhar alternando de um lado ao outro, para cima, desviando de automóveis destruídos. Praticamente não existe nada que não tenha sido tocado pelo terremoto.

Numa parte da cidade o barulho das sirenes foi substituído por centenas de alarmes de carros, é insuportável. Logo depois sinto um outro barulho, inédito, preciso de alguns instantes para descobrir que é o alarme de uma agência bancária que está descarregando. Parece um gemido. Um prédio agonizando, rouco de tanto gritar.

Numa vitrine alguns manequins estão encostados contra o vidro mas sinto medo quando vejo um deles caído no chão, uma das faces apoiadas no pavimento, o olhar na direção da rua.

O cheiro de gás está por toda parte, provem das tubulações subterrâneas que abastecem a cidade, em vários pontos a água brota do asfalto e uma vaga possibilidade de explosão me toca a mente. É um pensamento que permanece pouco tempo, escorre via por um lado do cérebro que inicia a não ser mais capaz de deter as imagens, os odores, os ruídos daquela cidade.

As pessoas estão em estado de choque, são silenciosas, muitos rodam pela cidade, continuo encontrando algumas delas. Alguns conseguem chorar mas na maioria das vezes estão com o olhar perdido, quase estivessem com a mente em outro lugar.
Uma senhora parada na frente de um prédio residencial me fala que está indo para a casa da filha, em outra região do país. Espera pelo marido que havia entrado na garagem subterrânea para buscar o carro. Explica que passou 30 anos pagando um apartamento que agora não não é estável. Diz que perdeu tudo. Tem 75 anos. Chama o marido que teima em não aparecer e ambas sabemos – mas não dizemos – que o prédio pode cair ou um novo tremor pode acontecer de um momento para outro. O portão automático ainda abaixado. Ela abana a cabeça, chora baixinho.

Penso naquela inteira cidade onde todos, todos os prédios estão vazios ou concluíram a própria existência engolindo pessoas, objetos, histórias de uma vida inteira. Penso em Onna, em Rocca di Cambio, em Paganica, em Fossa, nas cidadezinhas ao redor de Áquila terrivelmente atingidas ou que simplesmente desapareceram do mapa. Penso às centenas de pessoas que vivem em casas isoladas, nas montanhas, e de que não temos notícias.

Não resisto e lhe dou um abraço. Um abraço longo, apertado. E lhe desejo todo o bem do mundo.

Itália, segunda – feira, 06 de abril de 2009

A serpente que se arrasta sob Abruzzo
Abruzzo, 9 e 10 de abril 2009

Acordei-me com o terremoto, desci as escadas tropeçando até a sala. Não conseguia me equilibrar, era impossível apoiar-me nas paredes. Fiquei embaixo de uma arcada para me proteger. Primeiro tremeu tudo, depois começou a saltar. Eram abalos verticais junto com um barulho que parecia explosão: Bum. Bum. Bum. Então a luz foi embora e começou a cair pedaços de teto. Eu fechei os olhos e pensei: acabou. Vou morrer agora“.

Paolo está sentado na calçada do estacionamento de um shopping center, ele tem trinta anos e perdeu tudo. Enquanto conta como foi a noite do dia 6 de abril, continua lançando olhares na direção da entrada de vidro ali próxima: “esse shopping aguentou o terremoto e foi um dos poucos lugares que já estava aberto apenas três dias depois mas não consigo ficar muito tempo ali dentro, entre quatro paredes, me sinto preso“.
Junto com Paolo estão duas garotas comendo uns salgadinhos que acabaram de comprar. Explicam que não haviam sido preparados para aquela situação. “Eu estava dormindo junto com meu filho de 8 anos; quando começou o terremoto me joguei sobre ele para protegê-lo. Agradeço a minha irmã que me convenceu a dormir vestida, ou nós não teríamos tido o tempo de fugir“. É Carla quem fala, ao seu lado a irmã que “estudou sobre a periodicidade de cerca de 300 anos entre um forte sismo e outro aqui na região. O último foi em 1700, antes desse houve um outro em 1464“.
A irmã de Carla sorri olhando para o chão, um pequeno sorriso que não alcança os olhos azuis: “nós estamos dentro de um enxame sísmico desde o dia 14 de dezembro e ninguém, ninguém informou a população sobre o que deveria ser feito“. A moça tem a voz cheia de rancor. Conta que estava no hospital durante o terremoto, trabalha ali mas estava com febre, pensava que era um lugar seguro: “naquele momento não dá nem para calçar o sapato. A mente se desliga do corpo“.
Como tantas pessoas com quem conversei, eles se sentem traídos: o hospital que foi evacuado era a menina dos olhos da região de Abruzzo; tinha apenas dois andares, mas ocupava uma grande extensão horizontal, justamente para enfrentar um eventual terremoto e desde o início da sua construção, nos anos 70, engoliu cerca de 100 milhões de euros. Também outros prédios públicos, como a prefeitura, os quartéis, o tribunal, foram declarados inseguros. O prefeito estava trabalhando em uma escola primária. Praticamente toda a estrutura física do Estado caiu de joelhos diante desta calamidade.
Depois de 4 dias dormindo dentro dos carros ou nos acampamentos espalhados por vários pontos da região, os abitantes de L’Aquila e das cidadezinhas ao redor começam a perceber o que será a vida deles pelos próximos meses, com certeza por todo o verão, pelo outono. Quem tiver sorte poderá retornar para a própria casa, mas a previsão é que serão poucos, pelo menos dentro de L’Aquila, onde praticamente todas as construções foram consideradas inseguras.
Para os outros, para quem perdeu tudo, a expectativa é esperar dentro de roulottes, em casas de madeira pré-montadas ou em soluções do gênero, enquanto esperam que tudo seja reconstruido.
Reconstrução necessária, sem dúvida. Mas com que critério?
Quando casas recentes desmoronam como um castelo de cartas, a pergunta insistente é: o que aconteceu de errado? Foram construídas segundo as normas anti-sísmicas? Os mortos que continuam saindo das ruínas não podem responder, mas nos abrem as portas para uma realidade que já aparece terrível.
Um vereador da cidade, um dos desabrigados e que está alojado no acampamento principal, me diz que esse foi um terremoto estranho, capaz de transformar em migalhas um prédio e deixar intacto o do lado. “Como uma serpente, contorcendo-se no território, escolhendo quem atingir“. Não sei se ele acredita realmente nisso ou se depois de tantos anos de vida política, não começou a pensar que a economia não pode parar, e construir significava gerar trabalho, toda aquela atenção anti-sísmica era um exagero, afinal, não se tinha notícias de um terremoto com um tal poder de devastação. Não sei o que pensar.
Me diz que teve sorte, pelo menos a família dele está viva, enquanto amigos seus perderam filhos, esposas. A mulher e a filha tinham decidido dormir no carro depois do segundo tremor daquela noite — o primeiro às 23h e o outro 2 horas depois — “mas eu tenho a cabeça dura, quis dormir na minha cama e com o pijama, não esperava o terceiro. Amanhã vão celebrar os funerais de Estado, eu vou vestido com essa camisa de flanela e essa calça jeans, é a única coisa que tenho“.
São dois dias que visito as áreas atingidas pelo terremoto e algo estranho realmente existe. Por toda parte é possível perceber a serpente que julga, destrói — ou salva, deixando intactas — residências, igrejas, escolas e castelos. Provavelmente nos próximos dias será possível compreender melhor todos os aspectos científicos que envolvem as centenas de tremores — entre pequenos e grandes — que estão abalando a região somente no mês de abril, segundo o instituto italiano de geofisica e vulcanologia.
As informações são contraditórias. Aliás, são totalmente ausentes em alguns casos, e para a população atingida ainda é pior: “as tv’s do mundo inteiro estão aqui e nós não temos nenhuma aparelho de televisão, não sabemos o que está acontecendo em outras áreas ou o que dizem sobre nós“, se lamenta um senhor a um jornalista no acampamento provisório de Onna, uma das cidadezinhas que desapareceram do mapa.
Os cinegrafistas começam a ser mal-vistos e episódios de protestos têm se multiplicado nas áreas onde a população está reunida. Se já é difícil dormir entre estranhos, dentro de intermináveis filas de barracas, com problemas higiênicos — em muitos acampamentos após 4 dias ainda falta a água para tomar banho — ou encontrar o número justo de uma calça comprida e poder ter roupas íntimas, para essas pessoas tudo isso vira intolerável com aquelas câmeras curiosas, que invadem uma intimidade já mínima, com a presença de enviados de todas as nacionalidades, vestidos de paletó e gravata, fazendo as diretas televisivas tendo como fundo talvez o que sobrou da própria casa ou a atual — aquelas barracas azuis que tingem o território de Abruzzo.
No estacionamento do shopping, as meninas insistem para que eu coma um dos salgadinhos. “São uma especialidade da região, experimenta“, e eu não posso recusar, porque aquele gesto de cortesia é uma das raras situações normais e simples que aquelas pessoas podem viver nesses dias. É delicioso.
Enquanto deixo a região, depois de dois dormindo como eles dentro do carro, com uma temperatura que ainda se aproxima do zero grau durante a noite, ouço os sinos que anunciam o minuto de silêncio nacional durante os funerais oficiais.
Saindo de L’Aquila deixo para trás as filas de caminhões com doações de toda a Itália, traumatizada, mas solidária. Deixo os bombeiros, os policiais, os soldados, e os voluntários da Proteção Civil que, aos milhares, estão trabalhando dia e noite para aliviar o sofrimento das pessoas de Abruzzo e os jovens, que nos primeiros momentos foram quem escavaram para tirar os avós, os pais, os mais velhos, das ruínas. “Basta ver as feridas nas mãos deles“, diz o senhor de Onna.
Vou deixando os pais de família, as crianças, os estudantes, Alessandra Cora, uma menininha com olhar sapeca que começava a mostrar seu canto, os velhos e jovens vítimas fatais desse terremoto. É tempo de luto para os sobreviventes, aquela gente de montanha que agora chora esses quase 300 mortos e se aconchega uns aos outros, repetindo com orgulho “nós aquilanos somos gente forte“.
Quero esquecer, por enquanto, os políticos, os administradores públicos, os construtores, os técnicos e toda aquela rede de cumplicidade que constitui essa praga de crime organizado que contamina a Itália, nutrindo uma idéia de crescimento infinito, uma construção civil bárbara e, agora, assassina.
Silenciosamente rezo também para que um dia possam encontrar frente a frente a serpente que se insinua sob a terra de Abruzzo.

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